Você sabia que o intestino capta informações, produz sinais e envia mensagens ao cérebro, enquanto o cérebro também influencia o funcionamento intestinal? Conheça essa comunicação de mão dupla e fundamental para diversas funções do organismo.
O intestino é um órgão que atua com uma certa independência no seu funcionamento. Isso porque ele não precisa do cérebro para dar comandos em determinadas atividades, como a maioria dos órgãos. Ele conta com a ação de neurônios e neurotransmissores que integram o sistema digestivo e que formam a sua própria rede nervosa.
Somado a isso, o intestino tem uma comunicação bidirecional com o nosso cérebro, e essa comunicação interfere não apenas na saúde digestiva, no apetite e na saciedade, mas também na saúde mental, no humor e até na imunidade.
Entenda como acontece essa incrível conexão entre os órgãos e os motivos que fazem do intestino o segundo cérebro.
Por que o intestino é considerado o segundo cérebro?
O intestino é popularmente conhecido como segundo cérebro porque possui uma rede neural própria, complexa e relativamente autônoma, capaz de detectar estímulos e coordenar funções digestivas, chamada de Sistema Nervoso Entérico.
Assim, o termo segundo cérebro é utilizado não para dizer que o intestino tem a capacidade de “pensar”, mas que tem a habilidade de coordenar muitas funções intestinais de forma relativamente independente da atuação cerebral.
Além disso, há neurônios e neurotransmissores no trato intestinal, que são células e substâncias associadas ao funcionamento cerebral, reforçando o “apelido” de segundo cérebro.
O que é o Sistema Nervoso Entérico?
O sistema nervoso entérico (SNE) é uma extensa rede de neurônios localizada na parede de todo o trato gastrointestinal. Essa rede recebe informações sobre o que está acontecendo dentro do intestino e produz respostas locais, sem que o cérebro precise comandar cada etapa.
Na prática, o SNE é responsável por controlar funções como:
- movimentos do intestino (motilidade);
- secreção de substâncias digestivas;
- fluxo sanguíneo intestinal;
- absorção de nutrientes;
- respostas do intestino a estímulos químicos e mecânicos.
O intestino tem neurônios, neurotransmissores e hormônios?
Sim! Estudos estimam que o SNE contenha cerca de 200 milhões de neurônios. Somado a isso, é no intestino que acontece a produção de neurotransmissores e hormônios importantes para o funcionamento do nosso corpo e que são fundamentais para a sensação de saciedade, para a digestão e absorção de nutrientes.
Para contextualizar, um exemplo é a serotonina, que tem parte da sua produção feita pelo intestino. No trato intestinal, ela é importante para o movimento involuntário que conduz o bolo alimentar no processo de digestão. Ao mesmo tempo, também é produzida no cérebro, atuando na regulação do humor e do sono.
O GLP-1 também é um bom exemplo de hormônio produzido no intestino que ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue e aumenta a sensação de saciedade, cujos análogos servem como medicamentos de controle da diabetes e do peso corporal.
O que é o eixo intestino-cérebro?
Eixo intestino-cérebro é a rede de comunicação bidirecional e contínua entre o sistema gastrointestinal e o cérebro. Por mais que o SNE seja relativamente autônomo, ele se comunica diretamente com o Sistema Nervoso Central (SNC).
Como intestino e cérebro se comunicam?
A comunicação entre intestino e cérebro acontece por diferentes vias. Segundo o artigo “Mechanisms and clinical implications of gut-brain interactions”, as principais são:
- Nervo vago: é um nervo craniano que se estende do tronco cerebral até o abdômen, passando pelo coração, esôfago e pulmão. É o canal direto entre o intestino e o cérebro.
- Hormônios: células do intestino liberam substâncias, como GLP-1 e grelina, que podem atuar tanto localmente quanto em regiões do cérebro envolvidas em fome, saciedade e outras funções.
- Células enteroendócrinas e neurópodes: algumas células do intestino conseguem perceber estímulos dentro do tubo digestivo e transmitir informações ao sistema nervoso.
- Sistema nervoso entérico: a própria rede neural do intestino processa informações e coordena diversas funções digestivas, mantendo comunicação constante com o cérebro.
- Microbiota intestinal e sistema imunológico: microrganismos intestinais e moléculas produzidas por eles também podem influenciar essa comunicação.
Qual é o papel do nervo vago?
O nervo vago é uma das principais vias de comunicação entre o intestino e o cérebro. Ele funciona como uma espécie de “linha direta” entre os dois, levando informações do trato gastrointestinal ao SNC e também transmitindo sinais na direção contrária.

Qual é o papel da microbiota intestinal no eixo intestino-cérebro?
A microbiota intestinal participa da comunicação entre o intestino e o cérebro por meio de sinais neurais, metabólicos, hormonais e imunológicos. Uma pesquisa publicada na Physiological Reviews mostra a microbiota como uma importante “reguladora” do eixo intestino-cérebro.
Um dos principais mecanismos é a ação das bactérias que formam a microbiota e produzem ou modificam substâncias que podem influenciar o SNC, o metabolismo e a resposta inflamatória.
Entre essas substâncias, estão os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como butirato, propionato e acetato, produzidos pela fermentação de fibras provenientes dos alimentos. Eles podem atuar em células intestinais e estimular a liberação de hormônios como GLP-1, relacionado à saciedade e à regulação metabólica.
A microbiota intestinal também participa da produção e modulação de precursores de neurotransmissores, como serotonina, dopamina e GABA, substâncias produzidas no SNC que influenciam diretamente o humor, o sono, o bem-estar e outras condições mentais.
Ainda, uma microbiota intestinal equilibrada pode ajudar na prevenção da inflamação sistêmica de baixo grau, reduzindo o impacto de substâncias pró-inflamatórias na função cognitiva e na saúde mental.
Como a microbiota intestinal se comunica com o cérebro?
A comunicação entre microbiota e cérebro acontece por diferentes vias que funcionam de forma integrada:
- Sistema nervoso entérico: a microbiota interage com a extensa rede de neurônios presente no intestino, que coordena funções digestivas e também se comunica com o sistema nervoso central.
- Metabólitos microbianos: as bactérias da microbiota produzem ácidos graxos de cadeia curta. Essas moléculas podem atuar sobre células intestinais, imunológicas e nervosas, influenciando a comunicação com o cérebro.
- Sistema imunológico: a microbiota ajuda a regular a atividade das células de defesa. Substâncias produzidas pelas bactérias podem modificar respostas inflamatórias, que também participam da comunicação entre intestino e cérebro.
- Metabolismo do triptofano: as bactérias intestinais podem transformar o triptofano em diferentes metabólitos, influenciando vias relacionadas à serotonina e a outras funções do sistema nervoso.
Qual é a conexão entre intestino e saúde mental?
A relação entre saúde intestinal e mental vem ganhando cada vez mais atenção. Estudos mostram que o eixo intestino-cérebro estabelece uma comunicação constante entre esses dois sistemas. Por isso, o funcionamento intestinal pode influenciar processos relacionados ao humor, à ansiedade, à resposta ao estresse e ao sono. Ao mesmo tempo, alterações emocionais também podem modificar a motilidade, a sensibilidade e a microbiota intestinal.
Estão entre as possíveis relações:
- Microbiota e transtornos do humor: alterações na composição e na atividade da microbiota intestinal têm sido associadas a maiores chances de sintomas depressivos e de ansiedade.
- Estresse, ansiedade e microbiota: a microbiota intestinal tem sido implicada em diversas condições relacionadas ao estresse, incluindo ansiedade e síndrome do intestino irritável.
- Microbiota e sono: a microbiota participa de vias relacionadas ao ritmo circadiano e ao metabolismo de substâncias envolvidas no sono, como triptofano, serotonina, melatonina e ácido gama-aminobutírico (GABA). Em contrapartida, alterações na qualidade e na duração do sono estão associadas à composição da microbiota.
Sob um olhar mais integrativo, há estudos científicos que reforçam a relevância de uma abordagem que considere não apenas o cérebro, mas também a composição e o metabolismo da microbiota intestinal para tratar transtornos mentais.
O que os análogos de GLP-1 tem a ver com o eixo intestino-cérebro?
O peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, conhecido como GLP-1, se relaciona com o eixo intestino-cérebro. Pesquisas mostram que essa relação parece ser bidirecional: a microbiota intestinal pode influenciar a produção de GLP-1, enquanto os medicamentos que atuam nessa via também podem promover mudanças na composição da microbiota.
Estudos observaram que os medicamentos análogos de GLP-1, como semaglutida, liraglutida e dulaglutida, promoveram alterações em grupos de bactérias da microbiota. No entanto, ainda não está claro se essas mudanças são consequência direta da ação dos medicamentos ou se estão relacionadas a outros efeitos do tratamento, como perda de peso, mudanças na alimentação e alterações metabólicas.
Como cuidar do eixo intestino-cérebro?
Para manter o eixo intestino-cérebro em bom funcionamento, é essencial cultivar uma microbiota intestinal regulada e a saúde mental em equilíbrio. Assim, algumas dicas podem ajudar:
Priorize alimentos in natura e minimize ultraprocessados
Uma alimentação variada, baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados, contribui para uma maior diversidade de nutrientes e fibras. Em contrapartida, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados pode estar associado a alterações no ambiente intestinal e na composição da microbiota.
Nesse contexto, a dieta mediterrânea se destaca por priorizar frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais, castanhas, sementes, azeite de oliva e peixes. Evidências sugerem que esse padrão está associado a um perfil de microbiota mais favorável e, por meio do eixo intestino-cérebro, poderia influenciar processos relacionados à função cognitiva e à saúde cerebral.
- Saiba mais sobre a dieta mediterrânea.
Mantenha uma boa hidratação
A ingestão adequada de líquidos contribui para o funcionamento do organismo e é importante tanto para a saúde intestinal quanto para a cerebral. No trato gastrointestinal, a água ajuda a manter as fezes hidratadas e favorece o trânsito intestinal.
A hidratação também é importante para manter as funções cerebrais reguladas. A desidratação, principalmente quando mais intensa, pode prejudicar aspectos como atenção, concentração e desempenho cognitivo.
- Saiba mais sobre a importância da hidratação para o cérebro.
Pratique atividade física regularmente
O exercício regular pode beneficiar a saúde cerebral e o bem-estar, e parte desses efeitos pode estar relacionada à interação com a microbiota intestinal.
Estudos mostram que a atividade física está associada a um melhor perfil de microbiota, rica em bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), que participam da comunicação entre intestino e cérebro. Essa relação pode contribuir para aspectos como humor, cognição e resposta ao estresse.
Leia também:
- Entenda a relação entre estresse e atividade física
- Como a saúde mental influencia a performance física
Priorize um sono de qualidade
Os metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais podem participar de processos relacionados à produção e à regulação de substâncias envolvidas no sono, como GABA e melatonina. Por isso, estudos reforçam que uma microbiota equilibrada pode contribuir para os mecanismos que regulam o sono.
Por outro lado, a falta de sono também parece alterar a microbiota intestinal, e essa disbiose pode contribuir para a inflamação e para alterações cognitivas associadas à privação de sono.
- Saiba mais em Como regular o sono.
Encontre estratégias para lidar com o estresse
O estresse pode alterar a motilidade, a sensibilidade intestinal, a secreção de substâncias digestivas e até a composição da microbiota. Em períodos de estresse intenso ou prolongado, essas mudanças podem contribuir para sintomas como desconforto abdominal, alterações no ritmo intestinal, maior sensibilidade digestiva e até condições como a Síndrome do intestino Irritável.
Por isso, incluir estratégias de manejo do estresse na rotina também pode fazer parte do cuidado com o eixo intestino-cérebro. Técnicas de respiração, meditação, momentos de relaxamento e outras práticas que promovam bem-estar podem ajudar a reduzir a resposta ao estresse e favorecer o equilíbrio entre esses sistemas.
- Saiba mais em Técnicas de relaxamento para acalmar a mente e o corpo.
Pratique mindful eating
O mindful eating, ou comer com atenção plena, propõe estar mais presente durante as refeições, observando os sinais do próprio corpo e a experiência de comer. Isso inclui perceber a fome e a saciedade, prestar atenção aos sabores, texturas e aromas dos alimentos e reconhecer como o organismo responde à refeição.
Além de contribuir para uma relação mais consciente com a alimentação, essa prática pode ajudar a perceber melhor sinais digestivos, como sensação de estufamento, desconforto ou saciedade.
- Saiba mais em Mindful eating: como ficar em paz com seu alimento.
Consuma nutrientes aliados do intestino
Alguns nutrientes e componentes da alimentação podem contribuir para a saúde intestinal e participar dos mecanismos de comunicação entre intestino, microbiota e cérebro.
- Fibras: algumas fibras são utilizadas pelas bactérias intestinais como substrato para fermentação, dando origem aos ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). Esses metabólitos podem atuar nas células intestinais e imunológicas e participar da sinalização envolvida no eixo intestino-cérebro. As fibras também contribuem para o volume e a consistência das fezes e para o funcionamento intestinal.
Alimentos ricos em fibras: grãos integrais, leguminosas, sementes, frutas e vegetais.
- Probióticos: são microrganismos vivos que, quando consumidos em quantidades adequadas, podem trazer benefícios à saúde. Algumas cepas podem ajudar a modular a composição e a atividade da microbiota, além de interagir com a barreira intestinal e com o sistema imunológico.
Alimentos ricos em probióticos: iogurte natural, kefir e kombucha.
- Polifenóis: esses compostos podem ser metabolizados pela microbiota, originando substâncias bioativas. Ao mesmo tempo, os polifenóis podem influenciar a composição e a atividade de determinados grupos de bactérias, estabelecendo uma interação de mão dupla entre alimentação e microbiota.
Alimentos ricos em polifenóis: frutas vermelhas, cacau, chás, café, azeite de oliva, castanhas e outros alimentos vegetais.
- Ômega-3: os ácidos graxos ômega-3 participam da estrutura e do funcionamento das membranas celulares e estão envolvidos na regulação de processos inflamatórios. No contexto do eixo intestino-cérebro, também são estudados por sua possível interação com a microbiota, a barreira intestinal e os mecanismos relacionados à inflamação e à função cerebral.
Alimentos ricos em ômega-3: peixes como sardinha, atum, salmão e cavalinha.
Além dos alimentos, os suplementos também podem ajudar a incluir nutrientes aliados da saúde intestinal. Conheça algumas opções!
FAQ
Quantos neurônios existem no intestino?
O sistema nervoso entérico do intestino possui cerca de 200 milhões de neurônios. Essa extensa rede neural ajuda a controlar funções como os movimentos do intestino, a secreção de substâncias digestivas e o fluxo sanguíneo local.
O intestino produz serotonina?
Sim. Cerca de 90% da serotonina do organismo é produzida no intestino, onde atua principalmente na regulação das funções digestivas, como a motilidade intestinal.
O intestino influencia o humor?
Pode ter influência. O intestino e o cérebro trocam sinais continuamente pelo eixo intestino-cérebro. Assim, substâncias produzidas pela microbiota, hormônios e sinais do sistema imunológico, assim como informações transmitidas pelo nervo vago, podem influenciar na atividade de áreas e circuitos cerebrais relacionados às emoções e à regulação do humor.
Qual é a relação entre intestino e ansiedade?
Pode ter influência. O intestino e o cérebro trocam sinais continuamente pelo eixo intestino-cérebro. Assim, substâncias produzidas pela microbiota, hormônios e sinais do sistema imunológico, assim como informações transmitidas pelo nervo vago, podem influenciar na atividade de áreas e circuitos cerebrais relacionados às emoções e à regulação do humor.







